terça-feira, 10 de novembro de 2015

Professora da UFC é alvo de ameaças de morte por manter blog sobre feminismo

Dolores Aronovich, mais conhecida como Lola, é professora do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará (UFC). Argentina naturalizada no Brasil, Lola escolheu o Ceará para viver e uma causa para apoiar: o feminismo. Em seublog “Escreva Lola Escreva”, um dos mais acessados do tema no país, a professora passou a incomodar pessoas de ideologias opostas, e virou alvo de ataques ofensivos e ameaças de morte.
Criado em 2008, o blog aborda diversos temas, tendo o feminismo como foco, e possui cerca de 500 mil visualizações por mês. “Antes do blog, eu colaborava com textos sobre cinema para alguns sites, mas queria ter total liberdade editorial. Como sempre fui feminista, desde criança, isso transpareceu nos posts e virou um dos assuntos principais do blog. O Escreva Lola Escreva tenta fazer pensar, fazer questionar tudo que está aí”, adianta.
Blog falso
Em outubro deste ano, um site falso em nome da professora foi criado, segundo Lola, por um homem que mantinha um site onde defendia a legalização do estupro; estupro corretivo para lésbicas; assassinato de mulheres; negros e gays. Ele foi preso em 2012 em Curitiba, mas saiu no ano seguinte. Intitulado “Lola Escreva Lola”, o site falso passou a publicar conteúdos a favor do aborto para fetos masculinos, infanticídio e castração de meninos, além de venda de medicamentos abortivos. Tudo em nome da ativista.
“Poucos dias depois fui à delegacia registrar um Boletim de Ocorrência. O site falso estava divulgando meu endereço e telefone residenciais em todos os posts. Ele diz também que eu realizei um aborto numa aluna nas dependências da UFC e que eu rasgo bíblias. É tanto absurdo, tanta barbárie, que eu fico chocada que alguém possa pensar que aquele site é real. Até porque tenho um blog de verdade há oito anos. É só ir lá e conferir que não defendo absolutamente nada disso”, esclarece.

O blog falso em nome da professora escreve em seu nome conteúdos a favor de infanticídio e castração masculina. (FOTO: Reprodução)
Numa tentativa de punição dos difamadores, a professora recorreu à Justiça, e fez sete Boletins de Ocorrência, sem sucesso. “Um superintendente da Polícia Federal me disse que eles só investigam crimes em que o Brasil é signatário internacional, como racismo e pornografia infantil, e só se houver o princípio de transnacionalidade”, lamenta.
Ameaças 
Desde 2011, Lola recebe ameaças de morte, estupro e tortura feitas em comentários em seu blog, Twitter e até mesmo por telefone. Ela revela que uma petição foi feita em seu nome pedindo a legalização da pedofilia, documento esse solicitado pelo mesmo autor do blog falso. “Ano passado ele criou um chan (um fórum anônimo) e fez questão de enviar o link pra mim, para que eu possa acompanhar todas as ameaças que são feitas a mim diariamente. Há uma recompensa para quem me matar“.
Ao perceber a facilidade que é popularizar um site de conteúdo falso, a professora pensou em desistir do seu blog e largar a internet, mas optou por permanecer. “Desistir é dizer aos misóginos e preconceituosos em geral: ‘Vocês ganharam’. Portanto, esta não é uma opção. Seria fazer o jogo deles. Além disso, minha visibilidade é minha maior defesa”.
“Desistir é dizer aos misóginos e preconceituosos em geral: vocês ganharam. Portanto, esta não é uma opção. Seria fazer o jogo deles”. (Lola Aronovich) 
Apoio
A UFC chegou a cobrar explicações da professora em sua corregedoria por ter recebido reclamações a respeito. Ao constatarem que se tratavam de conteúdos enganosos, postaram em seu site uma nota de apoio oficial a Dolores.
Em trecho do documento, a UFC espera que as pessoas envolvidas nessas ações de difamação e calúnia sejam responsabilizadas pelo que dizem e assumam as consequências decorrentes. “O Conselho do Centro de Humanidades, reconhecendo a postura ética, séria e profissional da Prof. Lola Aronovich, se solidariza com ela e repudia as calúnias e os ataques que a professora tem recebido”, diz a nota.
Na internet, a professora tem recebido centenas de mensagens de apoio no Twitter e Facebook com a hastag #forçalola, que foi postada nos perfis oficias de nomes como a ex-candidata à presidência pelo Psol, Luciana Genro, e o ator José de Abreu. “Estou em contato com ativistas e advogadas e vamos colocar o Ministério Público para nos ajudar. Vou até o fim”, assegura.
Mesmo com as ameaças, Lola não se deixa intimidar, não tem medo, e trabalha normalmente. Foi convidada pelo Congresso Nacional para dar uma palestra sobre violência contra a mulher no dia 2 de dezembro. Segundo ela, os intimistas que tentam amedrontá-la são, acima de tudo, covardes.
Fonte: Tribuna do Ceará
Postado por: Por Marianna Gomes em Segurança Pública